Prisão de vereador abala o Rio, revela frágil ligação com tráfico de drogas e acende alerta máximo para disputa política na capital fluminense
A prisão do vereador Salvino Oliveira, do PSD, na última quarta-feira, por suspeita de ligação com o tráfico de drogas, desencadeou uma feroz batalha política no Rio de Janeiro, com o partido do político denunciando o suposto uso do aparato estadual para perseguir adversários. A Operação Contenção Red Legacy, que levou à detenção de Salvino e de seis policiais militares, está no centro da polêmica, enquanto a defesa do parlamentar já impetrou um pedido de habeas corpus após a confirmação da prisão pela Justiça em audiência de custódia.
As investigações conduzidas pela Polícia Civil apontam que a autodeclaração de Salvino Oliveira como “cria” da Cidade de Deus, aliada ao seu slogan de campanha “Vereanças das Favelas do Rio”, foi um fator decisivo na acusação de envolvimento com facções criminosas. Conforme o inquérito da corporação, essa autodeclaração ganha relevância quando contextualizada com o histórico da Cidade de Deus, área que, devido à sua proximidade com a Gardênia Azul, foi historicamente usada pelo Comando Vermelho como base avançada e ponto de concentração logística para criminosos.
O PSD, presidido no Rio pelo deputado federal Pedro Paulo, reagiu com veemência. O diretório do partido denunciou ao Superior Tribunal de Justiça, em conjunto com a Procuradoria Geral da República, a alegada instrumentalização da força policial fluminense para fins de perseguição política. O partido solicita o afastamento do secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, e do governador Cláudio Castro, do PL, conforme antecipado na coluna de Lauro Jardim, do GLOBO.
“Acabei de formalizar, junto a outros deputados, o pedido de uma audiência com o diretor-geral da Polícia Federal e com o relator da ADPF (das Favelas), ministro Alexandre de Moraes. Pedi que fosse já amanhã (hoje) para entender presencialmente o que está acontecendo aqui no Rio. É uma máfia que está instrumentalizando a polícia para prender adversários.”
A judicialização do caso representa uma escalada significativa na já tensa rivalidade política entre o prefeito Eduardo Paes (PSD) e o governador Cláudio Castro, ambos em articulação para as eleições deste ano. Paes elevou o tom das críticas, chamando Castro de “delinquente” e “frouxo”.
“Até que me apresentem provas, vou continuar defendendo Salvino. Ele se autointitula cria da Cidade de Deus. Eu sou cria do Jardim Botânico, de uma família de classe média do Rio. Alguém aqui é cria do Complexo da Penha, de Bangu, Campo Grande, Santa Cruz. Qual é o problema? Se querem me atingir, venham para cima de mim, um político experiente, não (manchem) a honra de um jovem vereador. Tomem vergonha na cara de vocês.”
O prefeito afirmou ainda que seu partido recorrerá às instâncias federais da Justiça contra a politização da polícia, destacando seu “respeito” por esses órgãos. Em resposta às críticas de Paes, o Palácio Guanabara emitiu uma nota, defendendo que a prisão de Salvino ocorreu estritamente sob critérios técnicos.
“A análise da prisão passou por três esferas diferentes e independentes: Polícia Civil, Ministério Público e Judiciário. Não é decisão de governo, é decisão de Justiça. (…) O governo do estado estranha que o prefeito esteja tentado politizar a investigação feita de forma totalmente legal.”
Provas contestadas e a cronologia da investigação
O deputado Pedro Paulo contesta a fragilidade das provas, alegando que o inquérito apresenta como único elemento concreto uma conversa interceptada onde o nome do vereador é mencionado. O trecho em questão diz:
“Chefe, acabou de me ligar o Landerson, sobrinho da Tia Márcia, falando que o Pé e você autorizaram o Salvino a trabalhar e que é para eu dar suporte e ajudar nos projetos dele. Procede?”
A resposta do destinatário da mensagem, no entanto, foi dada por chamada de voz e seu conteúdo não foi registrado. Apesar disso, o inquérito sustenta que:
“Tal conteúdo revela, de forma indiciária, que a atuação do parlamentar na localidade pode não se dar de maneira autônoma ou estritamente institucional, mas condicionada ao aval e à tutela da organização criminosa dominante.”
Além da menção de ser “cria da Cidade de Deus”, os investigadores ressaltam que Salvino foi designado como relator de uma Comissão Especial na Câmara Municipal do Rio, criada para debater e propor políticas públicas para favelas, com atuação prevista entre 15 de abril de 2025 e 4 de dezembro de 2025. Mesmo admitindo que tais atribuições são inerentes ao mandato parlamentar, a polícia argumenta que a aparição do nome do vereador em uma conversa com lideranças do Comando Vermelho altera o contexto da situação.
Em outro ponto do inquérito, a autoridade policial enfatiza a suposta “hipocrisia” do vereador, que em um vídeo público critica veementemente o envolvimento de políticos com facções criminosas, classificando-o como “absurdo” e escandaloso. O vídeo faz menção específica à prisão do deputado Bacelar, presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio, por alegado vazamento de informações sigilosas sobre um mandado de prisão.
A Polícia Civil informou a cronologia da investigação, que teve início em 15 de outubro de 2024. A representação pela prisão foi realizada em 1º de janeiro de 2026. O Ministério Público deu parecer favorável em 21 de janeiro, e o Poder Judiciário autorizou os mandados em 27 de fevereiro, com expedição em 3 de março deste ano.


















