A complexa relação entre Tarcísio e Kassab afasta PSD da vice

Tarcísio de Freitas e Gilberto Kassab em conversa tensa em evento político em São Paulo

Desgaste da relação entre governador e articulador-chefe do PSD redefine o cenário pré-eleitoral, com Kassab enfrentando resistências e Tarcísio buscando fidelidade para sua chapa

A aliança entre o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o secretário de Governo, Gilberto Kassab (PSD), enfrenta um desgaste acentuado que pode excluir o PSD da chapa majoritária de reeleição ao governo de São Paulo, segundo apuração do Estadão.

Antigo “homem-forte” da gestão, Kassab vê seus poderes limitados e enfrenta desconfiança do círculo próximo do governador, que já comunicou a aliados sua recusa em ter o secretário como vice.

A reportagem do Estadão, publicada em setembro do ano passado, já indicava que Tarcísio não cogitava Kassab para a vaga de vice em uma possível reeleição.

A preferência do governador recai sobre Felício Ramuth (PSD), seu atual vice, que inclusive passou a ser assessorado pelo marqueteiro Pablo Nobel, o mesmo de sua campanha vitoriosa em 2022, a pedido do próprio Tarcísio.

Internamente, Ramuth é visto como um parceiro leal e discreto, sem gerar conflitos na administração.

Ambições e resistências: O tabuleiro político de Kassab

Gilberto Kassab, que em 2004 utilizou a estratégia de ser vice de José Serra (PSDB) na Prefeitura de São Paulo para depois assumir o comando da capital e estruturar o PSD, mantém o projeto pessoal de ser governador.

Sua aposta seria ocupar novamente a vice na chapa de Tarcísio. Contudo, aliados do Palácio dos Bandeirantes descrevem que o secretário tem “caneta”, mas “sem tinta”, indicando a limitação de sua influência na gestão, especialmente em convênios de grande porte que dependem de aval da Casa Civil e do governador.

O Estadão também revelou que, além da rejeição de Tarcísio e seu entorno, presidentes de partidos da base aliada igualmente se opõem à indicação de Kassab.

Eles acusam o secretário de usar a estrutura de sua pasta para fortalecer o PSD, que hoje se tornou o partido com o maior número de prefeituras no país, superando o MDB.

A leitura entre aliados de Tarcísio é que Kassab buscou acumular poder de barganha para viabilizar sua candidatura à vice, oferecendo aos partidos algo que compense a resistência ao seu nome.

Ruídos públicos e a troca na Casa Civil

A relação entre Tarcísio e Kassab registrou, desde dezembro do ano passado, ao menos um ruído público.

O jornal O Globo publicou que Kassab deixaria a Secretaria de Governo nas semanas seguintes, informação que foi confirmada pelo Estadão com fontes no Palácio dos Bandeirantes.

No entanto, após uma reunião no mesmo dia, a saída deixou de ser iminente, e os dois combinaram de reavaliar o cenário no início de 2026.

Até o momento, essa conversa não ocorreu, mas o prazo para Kassab desocupar o cargo e disputar a eleição se aproxima, fixado em 6 de abril.

Em janeiro, o presidente do PSD declarou que Tarcísio necessita de identidade própria em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

“É fundamental que ele tenha a sua identidade. Uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade. Outra coisa é submissão.”

No dia seguinte, Tarcísio reagiu à fala de seu secretário.

“É nesse momento difícil que os amigos aparecem para dizer ‘estou contigo, conta comigo’. Isso não tem absolutamente nada a ver com submissão.”

Outra declaração de Kassab, em tom de brincadeira, alertou aliados de Tarcísio na semana passada, ao explicar que a legislação permite ao PSD apoiar a reeleição do governador, mas com um candidato a presidente diferente do de Tarcísio.

“Aqui em São Paulo, o governador Tarcísio no seu palanque vai ter Tarcísio governador, Flávio presidente. No nosso palanque nós vamos ter Tarcísio governador e o nosso candidato [do PSD] a presidente. Mas o nosso palanque vai ganhar. Nessa o Tarcísio vai me desculpar, mas nós vamos dar um couro nele.”

Mais recentemente, a nomeação de Roberto Carneiro, presidente do Republicanos, para a Casa Civil, foi interpretada como um revés para Kassab.

Carneiro recebeu a missão de reforçar a articulação política do governo, estreitando laços com prefeitos e partidos aliados.

Essas atribuições se sobrepõem às da Secretaria de Governo, e fontes do Palácio indicam que Carneiro tem auxiliado outras legendas da base na montagem de chapas municipais e estaduais, visando conter o avanço do PSD e evitar insatisfação entre aliados.

A filiação de seis deputados do PSDB à Assembleia Legislativa pelo PSD, por exemplo, acendeu um “sinal de alerta” no governo, que sentiu a necessidade de intervir para equilibrar a distribuição de espaço político.

Alternativas para a vice e cenários futuros

Diante da resistência, Tarcísio já sinalizou a possibilidade de acomodar Felício Ramuth em outro partido, como o MDB, para mantê-lo na vice.

Contudo, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), já expressou a aliados sua preferência pelo presidente nacional da legenda, deputado Baleia Rossi (SP), caso a vaga seja destinada ao MDB.

Embora aliados de Tarcísio vejam essa possibilidade como remota, reconhecem que Rossi poderia ser um nome de consenso entre os partidos.

O cenário atual de Tarcísio e Kassab remete à situação de José Serra em 2004, que resistiu ao nome de Kassab para vice, mas cedeu ao peso do então PFL no tempo de televisão.

Naquela época, Serra avaliava nomes como Lars Grael e Alexandre de Moraes.

A diferença agora é que a rejeição ao nome de Kassab não parte apenas de Tarcísio e seu círculo, mas também se estende a outras legendas da base aliada.

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