Irreverência e sarcasmo político em estado líquido marcam o retorno do grupo carnavalesco que nasceu na ditadura para desafiar as autoridades da Esplanada
O tradicional bloco Pacotão, de Brasília, confirma seu desfile para o Carnaval de 2026, prometendo uma “desordem organizada” e intensa sátira política. O grupo, conhecido por sua irreverência, visa manter a essência que o consolidou nos anos 1970, unindo humor e crítica sem hesitação, conforme as declarações do presidente do grupo, Charles Preto.
“O público pode esperar ‘desordem organizada’, gargalhada subversiva e crítica em estado líquido. É carnaval, não coletiva de imprensa”
A distinção entre humor e política, para o Pacotão, é inexistente. Charles Preto explica que, para o bloco, “o humor é político e a política vira piada”, e quem tenta separar essas esferas “normalmente está tentando esconder alguma coisa”. O desfile em 2026 ocorrerá a partir das 12h da terça, 17 de fevereiro, com concentração programada na 302/303 Norte.
Desafios burocráticos e a incessante fonte de inspiração política
Entre os desafios para a realização do evento, destacam-se as exigências burocráticas e a obtenção de licenças, essenciais para garantir a segurança e a diversão dos foliões. Charles Preto aponta o cenário político nacional como uma fonte inesgotável de inspiração, afirmando que “o Brasil não para de produzir conteúdo”, e o bloco se encarrega apenas de organizá-lo em formato de marchinha.
A escolha de ocupar o centro de Brasília durante o desfile é carregada de simbolismo para o Pacotão, pois é onde “o poder posa de sério”. O bloco serve como um lembrete de que a cidade não se restringe aos gabinetes; a rua também possui voz e poder de decisão. Charles Preto enfatiza:
“A gente observa, cobra, ironiza e desfila. Quando ajuda, a gente reconhece. Quando atrapalha, a gente transforma em marchinha. Quando promete demais vira fantasia coletiva.”
A gênese irreverente e a perpetuação da crítica
Fundado em 1978 por um coletivo de jornalistas em plena ditadura militar, o Pacotão surgiu com o propósito de criticar o poder através da sátira. Seu nome, “Pacotão”, faz alusão direta ao “Pacote de Abril”, conjunto de medidas implementadas por Ernesto Geisel em 1977. Essas leis controversas incluíam a criação dos “senadores biônicos”, a manutenção de eleições indiretas, o fechamento temporário do Congresso Nacional e a extensão do mandato presidencial para seis anos. O pacote, que não prosperou, tornou-se alvo de zombaria entre jornalistas de Brasília, culminando na ideia de um bloco carnavalesco para ridicularizar as ações do regime.
A longevidade do Pacotão, que se aproxima de cinco décadas, é atribuída à combinação de teimosia e constante renovação. Segundo o presidente do bloco, a existência do Pacotão está intrinsecamente ligada à sua capacidade de criticar:
“Se um dia parar de criticar, fecha a bateria e vira bloco de condomínio. Enquanto existir autoridade achando que não pode virar fantasia, o Pacotão segue desfilando.”
Charles Preto: o ditador perpétuo da autonomia carnavalesca
Charles Preto, a figura fictícia que personifica o Pacotão, é uma referência a Carlos Black, então diretor do Departamento de Turismo (Detur). Em 1978, na primeira edição do bloco, Carlos Black teria proibido a passagem do Pacotão pela W3 Sul. Os foliões, no entanto, ignoraram a ordem e desfilaram à revelia, inclusive na contramão. Considerado “presidente vitalício e ditador perpétuo” do Pacotão, Charles Preto simboliza a autonomia do grupo, que sempre recusou patrocínios governamentais e até mesmo condecorações. Apesar de “dar entrevistas”, o personagem não possui existência real.
