Cálculos eleitorais frenéticos e a corrida por novas filiações travam atividades legislativas com 10% do Congresso Nacional em intensa movimentação partidária
O Congresso Nacional experimenta uma desaceleração significativa em suas atividades, com a Câmara dos Deputados e o Senado Federal operando em ritmo reduzido devido ao período de abertura da janela para a troca partidária, que se estende de 5 de março a 4 de abril. A movimentação intensa de parlamentares em busca de novas legendas para as eleições de outubro de 2026 esvazia plenários e domina as discussões de bastidores.
O grande movimento de cadeiras em busca de vantagens
A expectativa atual é que no mínimo 10% dos membros do Congresso Nacional mudem de partido neste intervalo. Esse fluxo impulsiona o Legislativo a operar em marcha lenta, com a Câmara dos Deputados optando por três semanas de trabalho totalmente remoto. O Senado, por sua vez, já demonstra um ritmo mais brando desde o retorno do recesso, com muitos senadores focados em suas campanhas futuras.
As escolhas por novas siglas são motivadas por fatores regionais, como a busca por alinhamento com o partido de um candidato forte ao governo estadual ou com um “puxador de votos” para deputado. Em nível nacional, observa-se uma migração considerável de parlamentares do Centrão em direção ao PL, com a intenção de associar suas imagens à da família Bolsonaro. No Senado, o período também promove acomodações estratégicas, visando uma melhor projeção política nos estados ou a conquista de espaço para candidaturas majoritárias.
Exemplificando essa dinâmica, o senador Efraim Filho, sem condições de concorrer pelo União Brasil, migra para o PL com o objetivo de disputar o governo da Paraíba. Da mesma forma, o senador Alan Rick filiou-se ao Republicanos para concorrer ao governo do Acre.
Reformas e o fortalecimento de grandes partidos
Mesmo antes da abertura oficial da janela, a legislatura já havia registrado uma migração lenta, porém constante, com quase 10% dos deputados federais trocando de legenda. O Republicanos, sigla do presidente da Câmara, Hugo Motta (PB), foi o que mais cresceu, com um saldo positivo de oito deputados em relação ao número eleito em 2022. O PSD, com mais cinco parlamentares, e o PP, com três, também apresentaram fortalecimento.
Em contrapartida, o PL, partido de Jair Bolsonaro, contabiliza 12 parlamentares a menos do que no início da legislatura, com saídas tanto para siglas do Centrão quanto para o Novo, considerada mais à direita e com maior espaço para candidaturas majoritárias. O cientista político Murilo Medeiros, responsável por um levantamento das trocas pré-janela, aponta que as reformas que implementaram a cláusula de desempenho e o fim das coligações proporcionais contribuíram para o fortalecimento das maiores legendas.
“Parlamentares passaram a migrar de forma mais concentrada e juridicamente segura, especialmente em direção a partidos maiores, capazes de oferecer melhores condições eleitorais.”
Entre os dirigentes partidários, a expectativa é de crescimento de legendas como PSD, Podemos e Republicanos durante esta janela partidária, enquanto siglas como PSDB, PDT e União Brasil devem registrar queda. Mais do que ideologia, o prazo final de filiações se mostra como um momento de intensos cálculos políticos e numéricos.
Matemática eleitoral e o “filtro” ideológico
A montagem das chapas proporcionais exige uma intrincada matemática que considera o número de votos esperados para cada candidato, o total de votos da chapa e a quantidade de cadeiras a que ela terá direito, através do quociente eleitoral. Nos corredores e cafezinhos do plenário, as discussões sobre esses números são constantes.
Um deputado filiado ao PDT, por exemplo, revelou estar sob pressão de outro partido de esquerda para mudar de legenda. A decisão, contudo, é complexa devido aos números. O parlamentar pondera:
“Se continuar onde está, seria provavelmente o mais votado da chapa. Se migrar, cairia para quarto e correria risco de ficar sem mandato, caso a sigla não atinja o número de cadeiras projetado.”
Outro deputado, da Paraíba, fazia contas com colegas enquanto acompanhava julgamentos de dois ex-prefeitos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Condenados em primeira instância, a manutenção das sentenças inviabilizaria a chapa, que não alcançaria votos suficientes para eleger um representante, forçando uma busca urgente por outra legenda.
Ainda assim, nem sempre apenas os cálculos bastam. O diretório do PL em Minas Gerais planeja eleger 20 deputados federais, o dobro de sua bancada atual, impulsionado pela candidatura à reeleição do deputado Nikolas Ferreira. Na eleição anterior, a sigla perdeu vagas por falta de candidatos que atingissem 10% dos votos do quociente eleitoral, impedindo-os de ocupar as cadeiras “puxadas” por estreantes.
A alta expectativa de votação para Nikolas Ferreira gerou uma corrida para compor a chapa, visando aproveitar essa “carona”. Contudo, o deputado impôs um filtro rigoroso para as novas filiações: exige alinhamento ideológico com a direita, apoio à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro e oposição ao presidente Lula (PT). Essa medida barrou a entrada de políticos mais ao centro que desejavam se filiar.
“Não há um veto, mas um filtro. Estamos propondo que a entrada não seja automática. Vamos conversar antes e queremos que todos que entrarem deixem claro que farão parte de um projeto maior.”
Entre parlamentares de outras siglas que cogitavam migrar para o PL, o “veto” a políticos externos é visto como uma estratégia de Nikolas Ferreira para formar seu próprio grupo dentro do partido, impactando ao menos dois deputados federais com mandato.
Fundos eleitorais como atrativo para novos filiados
Outro fator determinante nas negociações de filiação é o valor do fundo eleitoral que cada parlamentar receberá para sua campanha. Partidos com maior acesso a recursos públicos, como as federações União Brasil e PP, utilizam esses valores como um atrativo para fortalecer suas chapas ao Congresso. O argumento é que siglas com pretensões presidenciais, como PT e PL, acabam dividindo seus recursos com caras campanhas majoritárias, resultando em menor investimento para as demais disputas. Um presidente de um partido nanico chegou a afirmar que propostas irreais estão sendo feitas, com algumas siglas prometendo o teto de gastos do fundo eleitoral para campanhas de reeleição, numa tentativa de inflar seu peso no Congresso com novas filiações durante a janela partidária.


















