Fechamento da investigação secundária pela delegacia de São Paulo deixa em aberto a identidade dos idealizadores por trás do plano de manipulação eleitoral que chocou a cidade
A investigação policial referente ao suposto atentado contra José Aprigio da Silva, ex-prefeito de Taboão da Serra, foi oficialmente encerrada sem a identificação dos autores intelectuais do plano. Embora as autoridades já tivessem concluído que o incidente foi forjado e apontado intermediários e executores, o Ministério Público (MP) havia demandado uma apuração adicional para esclarecer a autoria.
A delegacia responsável comunicou o arquivamento do segundo inquérito em 21 de janeiro deste ano. A justificativa apresentada foi o esgotamento de todos os “meios investigativos” disponíveis e a “impossibilidade de identificar” os mandantes. Além de Aprigio, outras seis pessoas foram investigadas por suspeita de envolvimento, e todas negaram participação na fraude.
Em depoimento gravado à Justiça, ainda durante o primeiro inquérito, Aprigio se emocionou, detalhou as sequelas do ferimento e afirmou desconhecer a trama por trás do ataque. O g1 teve acesso à gravação na qual o ex-prefeito expressou:
“Eu não gostaria de acreditar que partiu do meu grupo político [o ataque a tiros], mas a gente… tudo é possível. A gente não pode dizer que também, né… que não foi. Eu quero que a Justiça apure, que vai chegar no culpado, e quero ver esse culpado na cadeia. E eu quero dizer pra ele: ‘Por que você fez isso comigo?’ Tô sentindo muita dor no braço.”
Apesar do encerramento policial, o Ministério Público decidiu não solicitar o arquivamento do segundo inquérito. A instituição requereu a quebra dos sigilos bancário e telefônico dos sete investigados, incluindo Aprigio, além de novos laudos periciais. Secretários do então prefeito à época também permanecem sob investigação.
A farsa foi revelada por meio da delação premiada de Gilmar de Jesus Santos. Ele detalhou que o atentado foi encomendado por pessoas ligadas ao grupo político de Aprigio com a intenção de “parecer real” e garantir ampla repercussão na imprensa.
Gilmar especificou que um secretário, cujo nome ele não soube identificar, exigiu o uso de um fuzil no ataque para gerar comoção pública. O objetivo, segundo o delator, era manipular a opinião pública e impulsionar a campanha de Aprigio, que estava com baixos índices nas pesquisas após o primeiro turno, ficando atrás de Engenheiro Daniel (União Brasil).
“Era pra mim poder fazer um falso atentado… que o prefeito estava baixo nas pesquisas, que era pra aumentar a pesquisa”, disse o delator em audiência.
O MP aponta Gilmar e Odair como os responsáveis pelos disparos na Avenida Aprigio Bezerra da Silva, uma via municipalizada que homenageia o pai do próprio ex-prefeito. Após o ocorrido, o veículo vermelho adulterado, utilizado pelos criminosos, foi incendiado em Osasco.
A defesa de Aprigio, por meio de nota, reforçou a inocência do ex-prefeito e salientou que ele não foi indiciado por nenhum crime. O advogado Allan Hassan declarou:
“O que evidencia a inexistência de provas que o vinculem à absurda narrativa de que teria participado de qualquer suposta ‘armação’, versão esta que sempre foi rechaçada pela defesa desde o início.”
O defensor acrescentou que Aprigio foi “vítima de um grave atentado” e que o incidente quase custou sua vida, sendo “atingido por disparo de arma de fogo de grosso calibre durante o período eleitoral, fato que por pouco não resultou em sua morte”, conforme o comunicado. Atualmente, Aprigio tem 74 anos. Empresário do ramo da construção civil, ele está temporariamente afastado da política desde que perdeu a disputa pela prefeitura de Taboão para Daniel em 2024. Um vídeo editado, gravado pelo videomaker presente no carro e mostrando Aprigio sangrando, foi divulgado à imprensa pela assessoria do então prefeito 30 minutos após o ataque, contribuindo para a rápida viralização do episódio.


















