Alerta nacional: metade dos feminicídios atinge cidades pequenas

Par de sapatos femininos gastos em rua de terra batida em cidade pequena, simbolizando feminicídios e a ausência de proteção em municípios remotos.

Feminicídios no Brasil: cidades pequenas concentram metade dos casos, com redes de apoio escassas e taxas de mortes superiores às de grandes centros urbanos, aponta relatório

Metade dos feminicídios registrados no Brasil durante o ano de 2024 ocorreu em municípios com população de até 100 mil habitantes. Estas cidades, que abrigam apenas 41% da população feminina nacional, apresentaram uma taxa de 1,7 morte por 100 mil mulheres, superando os índices observados em localidades de médio (1,2) e grande porte (1,1). Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (4) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em seu relatório intitulado “Retrato dos Feminicídios no Brasil”.

A desigualdade territorial se torna ainda mais evidente ao se analisar a subdivisão das pequenas localidades. Cidades com até 20 mil moradores foram responsáveis por 19,6% dos feminicídios do país, embora representem 14,6% da população feminina. Adicionalmente, 19,7% das mortes aconteceram em municípios com faixa populacional entre 20 mil e 50 mil habitantes.

O cenário nacional reflete a persistência da alta violência letal contra as mulheres. Em 2025, o Brasil contabilizou 1.568 vítimas de feminicídio, o que equivale a uma taxa de 1,43 morte por 100 mil mulheres. Este número representa um crescimento de 4,7% em relação a 2024 e um aumento de 14,5% na comparação com 2021.

A problemática se agrava pela deficiência na presença de redes especializadas de atendimento em municípios menores. Apenas 5% das cidades com menos de 100 mil habitantes contam com delegacias de defesa da mulher, e somente 3% dispõem de casas abrigo, que oferecem acolhimento provisório e sigiloso a mulheres em situação de risco iminente de morte por violência doméstica e familiar. No total, somente 27,1% dessas localidades possuem ao menos um serviço especializado de apoio à mulher.

Em contrapartes, a realidade é distinta em centros urbanos maiores. Oitenta e um por cento das cidades médias possuem delegacias da mulher, e 40% oferecem casas abrigo. Em municípios com mais de 500 mil habitantes, a cobertura atinge 98% para delegacias e 73% para abrigos.

O relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta um claro “descompasso entre onde a violência acontece e onde está a estrutura do poder público”. Para a organização, o desafio crucial é ampliar a capilaridade das políticas de proteção.

“Nessas cidades (pequenas) é onde a gente não tem infraestrutura do Estado, unidades especializadas para fazer o atendimento dessa mulher”, afirma Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum.

A diretora-executiva ressalta que a principal dificuldade atual reside em transformar a legislação em presença concreta nos territórios.

“A gente tem uma boa legislação, tem equipamentos e unidades especializadas de referência. Mas como fazer com que isso vire realidade nessas cidades menores?”

Bueno também destaca que, em cidades pequenas, o nível de exposição social pode ser uma barreira para as denúncias.

“Uma mulher numa cidade de 20 mil habitantes, se ela entrar numa delegacia para denunciar, todo mundo percebe. A notícia corre muito rápido.”

Os vínculos sociais mais estreitos nessas comunidades também exercem influência.

“Cidades pequenas, os vínculos são de outra natureza. Todo mundo se conhece. Isso cria uma coisa da proteção, da camaradagem. Denunciar violência doméstica ou abuso sexual é muito mais difícil numa cidade menor.”

Além disso, Bueno aponta para a persistência de tolerância social à violência doméstica.

“Muitas vezes acham que a família tem de ser preservada a qualquer custo, então a mulher não pode denunciar.”

Desde a promulgação da lei que tipificou o crime de feminicídio, em março de 2015, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas no Brasil. Parte do aumento nos registros pode ser atribuída a uma melhoria na qualidade dos dados policiais. As maiores taxas de feminicídio em 2025 foram observadas no Acre (3,2 por 100 mil mulheres), em Rondônia (2,9) e no Mato Grosso (2,7).

No quadriênio compreendido entre 2021 e 2025, os maiores crescimentos percentuais foram registrados no Amapá (+120,3%), em São Paulo (+96,4%) e novamente em Rondônia (+53,8%), sublinhando a urgência de ações direcionadas e eficazes para combater a violência contra a mulher em todo o território nacional.

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