O mapa político de 2026 começa a ser desenhado com intensas articulações entre as principais forças do país e líderes estaduais em meio a um cenário eleitoral fragmentado e polarizado
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) intensificam negociações estratégicas com governadores estaduais, visando fortalecer seus palanques para a corrida presidencial de 2026. Pesquisas iniciais já sinalizam um pleito disputado, evidenciando que a busca por alianças nos estados reproduz a polarização nacional. Um levantamento conduzido pelo GLOBO revela que o petista atualmente conta com o respaldo de doze gestores estaduais, número idêntico ao grupo de governadores que compõem a oposição, enquanto três mantêm uma postura indefinida.
A divisão atual espelha o panorama das eleições de 2022, com Lula mantendo forte presença no Nordeste, enquanto a direita demonstra vantagem em outras regiões. Especialistas enfatizam a importância de palanques estaduais robustos para impulsionar a candidatura de um presidenciável. No entanto, alertam que esse apoio não se traduz automaticamente em transferência de votos do governador para o candidato à presidência. Adicionalmente, gestores que pretendem concorrer a outros cargos deverão desocupar suas posições até abril.
O cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), observa que a lógica regional pode estar desassociada do quadro nacional. “O eleitor distingue as arenas. Pode admirar um presidenciável e, ao mesmo tempo, preferir um governador de outro campo”.
Os estados governados pela oposição congregam mais de cem milhões de habitantes, quase o dobro da população total nos estados onde os líderes apoiam Lula, que somam cerca de 52 milhões de pessoas.
As alianças estratégicas de Lula
Lula pode contar com o apoio de figuras como o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), a de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), e o do Pará, Helder Barbalho (MDB). Este grupo inclui ainda os chefes do Executivo do Ceará, Maranhão, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe, Espírito Santo e Amapá. É notável que o Espírito Santo e o Amapá são os únicos estados aliados ao petista onde ele não venceu o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2022.
Os desafios de Flávio Bolsonaro e o cenário da oposição
Neste momento, Flávio Bolsonaro tem o suporte confirmado de cinco governadores, incluindo importantes colégios eleitorais como São Paulo e Rio de Janeiro, com Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Cláudio Castro (PL), respectivamente. Governadores de Santa Catarina, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul também sinalizam aliança com o bolsonarista. Contudo, o Distrito Federal, Amazonas e Rondônia, embora integrem a oposição, ainda não formalizaram o endosso à postulação do senador. Curiosamente, Amazonas e Rondônia deram maioria de votos a Lula em 2022, contrariando a posição atual de seus governadores.
O campo da oposição apresenta ainda outros governadores que almejam a Presidência, como Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, Ratinho Júnior (PSD), do Paraná, Eduardo Leite (PSD), do Rio Grande do Sul, e Ronaldo Caiado (PSD), de Goiás. A situação permanece incerta em Tocantins, Acre e Roraima, cujos governadores não definiram seu posicionamento.
Para o cientista político Fábio Vasconcellos, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da PUC-Rio, a divisão na direita representa uma “diferença importante” em comparação com 2022. “Há ruídos no campo da direita que atrapalham a campanha de Flávio. Mesmo Tarcísio levou um tempo para admitir o apoio ao senador.” Por outro lado, o apoio dos governadores nordestinos fortalece Lula em sua base e pode ser crucial para repetir seu desempenho de 2022.
Estratégias e obstáculos regionais
O Planalto tem direcionado esforços para convencer siglas do Centrão, atualmente mais distantes do governo, como a federação União-PP, a adotarem uma postura de neutralidade na eleição presidencial. Com foco no Sudeste, Lula aposta em figuras com forte capilaridade estadual ou projeção nacional para enfrentar os atuais governadores ou seus sucessores. No Rio de Janeiro, por exemplo, o prefeito Eduardo Paes (PSD), aliado do petista, é o favorito na disputa pelo governo contra o futuro nome do PL. Em São Paulo e Minas Gerais, Lula busca articular as candidaturas do ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), e do ex-presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD).
Carolina Botelho, cientista política do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neurociência Social e Afetiva, destaca a estratégia do governo. “Ao apostar em nomes fortes e nacionalmente conhecidos, o governo traz visibilidade, além de ter maior controle de coordenação política nos estados estratégicos. Sem dúvida fortalece o palanque e aumenta a capacidade de nacionalizar a disputa, sobretudo em cenários muito apertados”.
Batalhas acirradas em estados-chave
Enquanto o possível apoio de Paes no Rio de Janeiro pode angariar votos cruciais para Lula, governadores petistas enfrentam reeleições desafiadoras, com pesquisas indicando vantagem para a oposição. No Ceará, Ciro Gomes (PSDB) lidera os levantamentos mais recentes contra o atual governador Elmano Rodrigues (PT). Ciro busca uma aliança com o PL local, mas a resistência da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro complica as negociações. Pressionado, o governo Lula mobilizou Camilo Santana, ministro da Educação e ex-governador cearense, para apoiar a campanha de Elmano, com a possibilidade de assumir a chapa caso Ciro mantenha a liderança.
Na Bahia, a reeleição de Jerônimo Rodrigues (PT) é igualmente desafiada pelo ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União). Embora ainda não haja negociações formais, anotações do senador Flávio Bolsonaro indicam que o PL considera pactuar um acordo com ACM Neto. Flávio também não conseguiu consolidar o apoio de Ibaneis Rocha (MDB), governador do Distrito Federal, que aspira ao Senado, prejudicando os planos locais do PL, nem de Wilson Lima (União), do Amazonas, cuja popularidade foi questionada nas notas do senador.
O cenário para 2026, portanto, se desenha com intensa movimentação nos bastidores políticos estaduais, onde a disputa por apoio e a formação de palanques se mostram cruciais para o sucesso das campanhas presidenciais.


















